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Angelo Agostini

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Angelo Agostini deixou marcas profundas na vida nacional, em todos os grandes momentos do Segundo Império, mas hoje é pouco lembrado. Os dados sobre sua vida são escassos. Restam-nos quase que tão somente a eloquência de sua obra, aliás, monumental e significativa.

Temos quase que só duas datas que balizam sua biografia: a de nascimento (8 de abril de 1843) e a da sua morte aos 67 anos, no Rio de Janeiro, depois de uma vida intensa e significativa. Há um terceiro momento, muito importante, tanto para ele quanto para nós, quando ele chegou ao Brasil, porém, não há precisão a respeito. Falaram em 1860, 1859 e 1858.

Agostini nasceu em Vercelli, no Piemonte, Itália, aos pés dos Alpes. Seu pai Antonio Agostini era violinista, a mãe Raquel, cantora lírica. Nada temos de seus primeiros anos, na pacata Vercelli. Seu pai morreu quando o menino contava com 4 anos. A mãe, levou-o para viver com a avó, em Paris.

Da infância até a mocidade, apenas um fato dá um colorido a sua biografia e desenha os traços de sua vocação, ao ser descoberto seu talento precoce, foi encaminhado à Escola de Belas Artes, onde aprendeu desenho e aprimorou o traço que o tornaria famoso.”

Só virão a falar de Agostini quando ele já estava no Brasil, na pele do Diabo Coxo, infernando a vida dos políticos, para gozo e riso dos paulistanos. Como documento de sua presença no Brasil, temos seu primeiro texto, História do Cabrião, escrita por ele mesmo, publicado em 1866, no Cabrião, jornal de caricaturas, o segundo desenhado por Agostini em São Paulo.

Agostini teria vindo ao Brasil com sua mãe Raquel, acompanhava-a em turnê artística, trazendo na bagagem a arte itálica e a finesse francesa. No Rio, ficou três meses, o que Agostini confirma na História do Cabrião. Por quê? Para quê? O que teria levado o jovem artista de 20 anos a deixar Paris, então, centro cultural e artístico do mundo, e vir viver num país tão distante e não no trêfego burburinho da Corte, mas a se embrenhar nas matas, pelas pobres estradas, até chegar e se instalar numa cidadezinha sem maiores atrativos que uma Academia de Direito?  Pelas mãos do padrasto, Antônio Pedro Marques de Almeida, percorreu a imprensa paulista, em que o lápis litográfico como arma de combate era desconhecido, antes de publicar o seu próprio jornal, o que só se deu no ano seguinte ao de sua chegada.

O Diabo Coxo, o primeiro jornal ilustrado e de caricaturas de São Paulo, apareceu provavelmente num domingo, 25 de setembro de 1864, e foi até 25 de dezembro, completando a primeira série de 12 números. Tendo o subtítulo de Jornal Domingueiro, era redigido por Luís Gama, o grande abolicionista. No ano seguinte, publica-se a segunda série, também com 12 números, de 23 de julho a 31 de dezembro de 1865.      

No ano seguinte, encerrado O Diabo Coxo, Angelo Agostini, juntamente com Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis, publica outro jornal de caricaturas de grande sucesso, O Cabrião. Foram 51 números, de 30 de setembro de 1866 a 29 de setembro de 1867.  O jornal, apesar da recepção calorosa, teve de enfrentar logo de início pressões e perseguições, como o rumoroso "processo do Cabrião", e uma devassa policial, no final do último ano de publicação. 

Em 1867, O Cabrião foi o primeiro a se insurgir contra as desordens provocadas pelos acadêmicos de Direito em rixas constantes com os "futricas", como eram chamados aqueles que não eram estudantes. Em carta desaforada os acadêmicos do Recife se levantaram contra O Cabrião e contra "dois bandidos,  um carcamano de nome Angelo, e um galego de nome Wascar”.            

O último número, 51, de 29 de setembro de 1867, anunciava. "Não se assustem os desafetos e inimigos d’O Cabrião. Ele vai descansar um pouco, mas não deixa os arraiais do combate. Em breve prazo estará no seu posto.”

Agostini, diante de ameaças, às pressas, logo após o dia 22 de setembro de 1867, deixou São Paulo. No Rio de Janeiro passou a trabalhar no jornal ilustrado O Arlequim e logo depois na revista Vida Fluminense, que, parece, pertencia ao seu padrasto. Agostini, aos 25 anos, trabalhava em O Mosquito e Lanterna Mágica.

Em 1869, Agostini tinha 26 anos, e em de 30 de janeiro publicou o primeiro capítulo das Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte — história em muitos capítulos, a primeira novela-folhetim de que se tem notícia, no mundo. Ou, a primeira graphic novel.

Em 1870, Agostini, aos 27 anos, casa-se com Maria José Palha, filha do Visconde de Palha, de Portugal. Deixou a Vida Fluminense, talvez nessa época e por causa do casamento; deixou também as Aventuras de Nhô Quim, continuadas pelo artista Faria (Cândido de Aragonês), por mais cinco capítulos (10 ao 14).

No fim de 1875 ou princípio de 1876, uma empresa estava estabelecida, Angelo & Robin; o sócio principal sendo o grande litógrafo Angelo Agostini. E em 1876, justamente a 1º de janeiro, começou a circular a Revista Illustrada, a maior de todas as revistas brasileira de imagens do século 19, saindo da Officina Lithographica a Vapor da Revista Illustrada, da Rua da Assembléia 44, tipograficamente impressa por J. Paulo Hildebrandt. A Revista Illustrada foi a de maior duração (19 anos), a de maior tiragem (4 mil exemplares semanais) e a de maior importância política e social do Segundo Império brasileiro. Sua popularidade foi grande, aparecia aos sábados, era vendida a 500 réis o exemplar, com as assinaturas para a capital e interior.

Em 1884, tem início as Aventuras do Zé Caipora, quando Agostini está com 41 anos. Deve ter-se dado nesse ano o casamento de Laura, a filha mais velha de Agostini, então com 16 anos, com Álvaro Alvim, da cidade de Vassouras, que mais tarde viria a ser o famoso médico que introduziu o raio-X no Brasil. Depois deste casamento, Agostini se separou da mulher, também por Agostini ter-se apaixonado por Abigail de Andrade, sua aluna.

Em 1888, a campanha abolicionista é coroada de êxito: a Princesa Isabel assina a Lei Áurea em 13 de maio. Os escravos estão libertos e Angelo Agostini se naturaliza brasileiro. Nasce Angelina, filha de Angelo e Abigail. Por causa disso, as pressões sociais foram muitas, e políticas, também. Em 25 de outubro partem os três, Agostini, Abigail e Angelina, para Paris.

Em 1894, a Revista Illustrada elimina “publicada por Angelo Agostini” do cabeçalho. No ano seguinte, Agostini, aos 52 anos, volta da Europa. Sua esposa e um filho, nascido em Paris, haviam morrido tuberculosos. Aqui, o artista funda o seu último jornal ilustrado, Don Quixote. Assim, a partir de 1896 redesenha os 24 primeiros capítulos das Aventuras do Zé Caipora e acrescenta-lhe outros nove. Em 1902, o Don Quixote deixa de circular. Agostini, por um breve período, passa a fazer charges em A Gazeta de Notícias. Em seguida, mantém uma página semanal em O Malho. Em 11 de outubro de 1905, O Malho publica O Tico-Tico, o primeiro jornalzinho para crianças no Brasil. O logotipo é de Agostini. No jornal, o artista cria e desenha algumas historietas, ainda escreve alguns contos sob o pseudônimo de Pai João.

Em 1910, aos 67 anos, em 28 de janeiro, Agostini embalava a neta Mariana, quando se sentiu mal. Passou a criança para um familiar, sentou-se e morreu. Foi enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Laura e Artur Alvim foram seus descendentes mais famosos.

No dia 30 de janeiro (dia que teve início Aventuras de Nhô Quim, em 1869) comemora-se O Dia do Quadrinho Nacional, em homenagem a Agostini, criação da AQC, Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de São Paulo, em 1984, para premiar anualmente os destaques da categoria.

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