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Rubens Cordeiro

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Rubens Cordeiro, mais conhecido entre seus amigos desenhistas como Rubão, nasceu na cidade de São Paulo, no dia 15 de fevereiro de 1934.

Seu interesse pelo desenho começou junto com seu interesse pelos quadrinhos. Esse interesse, que acabou virando paixão, se deve a seu pai, um metalúrgico que começou a trazer na volta do serviço exemplares de revistas em quadrinhos como O Lobinho, Biriba e Globo Juvenil para dar de presente a seu filho. E foi nelas que Rubão encontrou novos amigos, heróis como O Fantasma, Flash Gordon, Capitão Marvel, Batman e O Príncipe Submarino.

Em pouco tempo, o menino Rubens começou a copiar quadrinhos inteiros destas revistas em todo e qualquer pedaço de papel que encontrasse disponível. Vendo o talento do filho, seu pai começou a comprar cadernos de desenho que o garoto enchia com poses de ação de seus heróis favoritos. Desde essa época, Rubens Cordeiro jamais deixou de desenhar.

Mas nem Rubens, nem sua família, jamais pensaram que alguém pudesse ganhar a vida com desenho. Por causa disso, quando ficou mais velho, ele passou por várias profissões, inclusive a que exerceu junto com a de desenhista até se aposentar pelo Estado: Agente de Segurança Penitenciário. Na verdade, ele já estava trabalhando nisso e continuava desenhando apenas como um hobby. Isso só mudou quando ele conheceu a primeira de muitas grandes figuras que iriam influenciar sua vida: Rivaldo de Amorim Macedo.

Jornalista, escritor, humorista, diretor de arte e ilustrador, o pernambucano Rivaldo trabalhou para o Jornal da Tarde e também para a Editora Abril. Ele fazia parte da turma que se reunia no estúdio que Rodolfo Zalla dividia com Eugenio Colonnese, o lendário Estúdio D-Arte, para papear sobre diversos assuntos, sobretudo quadrinhos. Além do tempo em que dividiu a direção editorial da editora Taíka com Zalla, Rivaldo se associou com Ulysses Alves de Souza e Reinaldo de Oliveira na Editora Graúna. Ele foi se afastando gradativamente do grupo depois de 1971 e, apesar de ainda ter publicado as tiras de SOS Brasil, por volta de 1975, abandonou os quadrinhos e faleceu há alguns anos.

Apresentado a Rubens por um amigo em comum, Rivaldo gostou dos desenhos que viu e encaminhou o rapaz a Eugênio Colonnese, que estava precisando de um ajudante. O ano era 1966 e o Estúdio D-Arte acabara de começar em uma sala, num prédio que pertencia à Beneficência Portuguesa, na Rua Maestro Cardim, quase em frente ao hospital.

Colonnese disse a Rubens que ele ainda não estava pronto para começar a desenhar sozinho, mas achou seu traço bastante seguro e acabou por ensiná-lo a fazer arte-final a nanquim, com pena e pincel. E foi finalizando desenhos de Eugênio Colonnese que Rubens Cordeiro estreou na profissão, quando já tinha mais de 30 anos. Como em seu emprego de Guarda Penitenciário ele trabalhava num sistema de escala, tinha vários dias livres durante a semana, e essas folgas ele passava integralmente no Estúdio D-Arte, desenhando e aprendendo tudo o que podia. Foi nessa época que começou a ser chamado de Rubão, a princípio apenas por Rodolfo Zalla, que na verdade o chamava de "Ruvón" com seu sotaque portenho, mas logo o apelido pegou, e embora sempre tenha assinado de outra forma, nunca mais deixou de ser chamado pelo apelido.

Sob a tutela de Colonnese, o talento de Rubão floresceu. A princípio, ele não se ligou a um estilo específico e era capaz tanto de mimetizar os desenhos de Colonnese como a se aproximar bastante de um de seus desenhistas favoritos, Frank Robbins, cujo trabalho na série Johnny Hazzard, Rubão adorava. Também de Colonnese, Rubão aprendeu os primeiros passos na utilização do guache, que logo dominou, se tornando também um excelente capista, em muito pouco tempo.

Além de ajudar Colonnese, Rubão começou a desenhar suas próprias páginas, a maioria delas para histórias de terror e publicadas pela GEP, de Miguel Penteado. Nessa época, Rivaldo passou a publicar na Taíka uma série chamada Horror Cômico, e chamou Rubão para desenhar algumas das histórias que ele estava escrevendo. Rivaldo gostou muito do resultado e quando Horror Cômico acabou, em parte por causa de sua saída da Taíka, continuou trabalhando com Rubão em mais duas séries importantes dessa época, ambas editadas pela GEP. Naquele ano de 1967, haviam acabado de estrear no Brasil, com um grande aparato publicitário, os super-heróis da Marvel, numa série de desenhos animados (chamada hoje por saudosistas de "desanimados", graças à sua animação limitadíssima) e nos quadrinhos, pela Ebal, que lançou o número zero das revistas numa promoção conjunta com os postos Shell. E não apenas isso. Junto com os desenhos e as revistas, vieram miniaturas, bolas, lancheiras, camisetas, livros de colorir e vários outros produtos, fazendo com que os super-heróis ficassem, como se dizia na época, na crista da onda.

 

Nada mais natural, então, que as editoras paulistas que editavam material nacional tentassem o gênero. Pela Taíka saíram O Escorpião (em três versões diferentes), Bola de Fogo e Fantastic. Pela Edrel, Super-Heros e Pabeyma, seguidos algum tempo depois pelo Karate-Men. E pela GEP, Raio Negro, que já estava fazendo sucesso há alguns meses, publicando na mesma revista, como complemento, Hydroman e Homem-Lua. Este herói, criado por Gedeone Malagola, logo ganhou a companhia de Fantar, de Milton Mattos e Edmundo Rodrigues, e de Superargo, criado e escrito por Rivaldo e desenhado por Rubens Cordeiro.

Na verdade, já existia um herói chamado Superargo, que vivia uma série de aventuras coproduzidas entre a Itália e a Espanha, para o cinema. O primeiro destes filmes, Superargo contra Diabolikus, foi feito em 1966, tendo o lutador de luta-livre Giovanni Cianfriglia (usando o nome de "Ken Wood") no papel do herói de colante vermelho e máscara preta. Foram produzidos mais três filmes com o herói, o último deles quando a revista brasileira, estrelando um personagem com o mesmo nome, já fazia um certo sucesso nas bancas. É bem provável que Rivaldo conhecesse o Superargo do cinema, mas ele tratou de fazer um herói bastante diferente. O herói europeu era um herói científico, com arma de raios, nave espacial e vinha de outro planeta. Já a versão brasileira era um militar, o Coronel Braga, que se vestia de super-herói, armado apenas de coragem e uma pistola para combater o crime, e também sabotadores e espiões que ameaçassem a soberania nacional. Provavelmente, para fugir visualmente do herói do cinema, Rubão criou um uniforme bem bacana para o Superargo, nas cores amarelo e vermelho. A revista fez bastante sucesso, mas nem Rubão nem Rivaldo continuaram nela até o final, sendo substituídos por Luiz Meri, nos textos, e Eugênio Colonnese.

Na mesma ocasião e pela mesma editora saiu também um personagem bastante interessante que não fez tanto sucesso quanto Superargo, talvez por não ser um super-herói. Na verdade, era um aventureiro das estradas, que ia de um lugar ao outro numa possante motocicleta, distribuindo justiça e porradas pelos mais longínquos rincões do Brasil, usando uma jaqueta que era responsável pelo nome que usavam para chamá-lo: Pele de Cobra. A revista durou apenas três edições e nela saiu também um outro herói das estradas, apenas no número 2, o Patrulheiro Fantasma. Em Pele de Cobra, Rubão fez a arte-final sobre desenhos de Colonnese em quase todas as histórias e fez também as capas, além da história do Patrulheiro Fantasma. Todos os textos eram de Rivaldo.

Rivaldo havia sido, por pouco tempo, diretor editorial da Taíka, junto com Rodolfo Zalla. Eram amigos, mas numa certa altura se desentenderam e Zalla saiu. Pouco tempo depois, Rivaldo também saiu e foi mais ou menos nessa ocasião que ele criou o Superargo e o Pele de Cobra. Mas na verdade, desde sua saída da Taíka ele tinha outros planos, que acabaram envolvendo Rubens Cordeiro. O que Rivaldo tinha em mente era ter a própria editora e, depois de se associar com o jornalista Ulysses Alves de Souza e o produtor gráfico Reinaldo de Oliveira, lançou a Editora Graúna.

Os super-heróis ainda estavam bombando e a Graúna lançou três deles para aproveitar o momento. Todos eles passaram de alguma forma pelas mãos de Rubão.

Mystico era o Deus da Justiça da antiga Atlântida que reencarnava no corpo de um arqueólogo, o Dr. Calvet, toda vez que este colocava seu antigo elmo, sempre guardado numa sala secreta. Transformado em Mystiko, ele saía, então, pelo mundo moderno, combatendo organizações criminosas e robôs gigantes. Desenhos de Rubão em todas as histórias, escritas por Rivaldo.

O Homem Fera (algumas vezes chamado de Pantera nas histórias) era Alfredo, o domador de um circo que junto com sua pantera amestrada Madina se aventurava pelas noites num uniforme negro, causando terror entre palhaços criminosos (no duro) e cientistas loucos, como Mr. Charles Bouquet. Duas das três histórias que saíram têm desenhos de Rubão. A última foi desenhada por Rodolfo Zalla.

Por fim, o mais lembrado deles, Golden Guitar, também conhecido como Capitão Guitarra, cuja identidade seria o cantor pop Renato Fortuna, calcado claramente em Roberto Carlos, que fazia um sucesso sem precedentes naqueles anos da Jovem Guarda. Vestido um uniforme azul e vermelho o Capitão Guitarra combatia bandidos como O Cabeleira e O Violinista a bordo de seu carrão Abarth, levando a tiracolo uma guitarra com truques capazes de fazer o cinto de utilidades do Batman parecer coisa de amador. Era mesmo uma brasa, mora?

O lápis da maioria das histórias era de Apa, chamado erroneamente por algumas fontes de "José Aparecido da Silva", mas grafado na própria revista como Benedito Aparecido da Silva. Apa era um outro amigo de Rivaldo, que fez apenas isso nos quadrinhos e sobre quem não se sabe muita coisa mais. A arte-final de todas as histórias e as capas eram de Rubão, que desenhou integralmente o quarto número, depois da saída de Apa.

Apesar de as revistas serem muito legais, não venderam o que se esperava e foram descontinuadas. Rubão continuou trabalhando para a GEP e a Taika, embora cada vez menos. A uma certa altura, Miguel Penteado, irritado com a censura, resolveu deixar de editar quadrinhos, e a editora passou a atuar apenas como gráfica. Colonnese e Zalla passaram, por sua vez, a trabalhar cada vez mais para as editoras de livros didáticos e gradativamente também se afastaram, o que acabou fazendo com que Rubão também diminuísse seu ritmo, embora tenha continuado a desenhar todos os dias, apenas pelo prazer de desenhar.

Isso mudou um pouco em 1975, quando Primaggio Mantovi o convidou a ser um dos desenhistas da série do Zorro, publicada no Almanaque Disney e em algumas edições especiais, que serviram de teste para uma possível revista própria. As revistas venderam bem, mas menos do que a Editora Abril esperava e o Zorro seguiu saindo apenas em Almanaque Disney, como parte do mix. Rubão desenhou algumas histórias que, segundo ele, foram muito bem pagas. Talvez não fosse tanto assim, mas para quem estava acostumado com a grana curta das editoras menores, a Abril devia ser o máximo.

Neste mesmo ano, com o final da Editora O Cruzeiro, o título Heróis da TV ficou sem dono e passou a ser publicado pela Abril, com os mesmo heróis dos desenhos da Hanna-Barbera. Só que enquanto na O Cruzeiro o título era trimestral, na Abril ele foi publicado como um almanaque mensal, e foi preciso encomendar a artistas nacionais novos materiais com os personagens licenciados. Foi assim que Rubão passou a fazer Os Herculoides.

Até o final dos anos 1970, Rubão continuou trabalhando para a Editora Abril, mas não em quadrinhos e sim num outro produto editorial, que fez muito sucesso entre a molecada daquele tempo, se tornando uma verdadeira mania: o transfer. Eram adesivos transferíveis por decalque para um mapa ilustrado (ou para onde você quisesse) e as edições eram temáticas. Havia coleções que iam desde História do Brasil até Carros de Fórmula 1, passando por personagens licenciados como Falcon, heróis da Hanna-Barbera e da Disney. Rubão desenhou muitos deles.

Então, em 1982, Rodolfo Zalla surge nas bancas com sua própria editora, a D-Arte e duas revistas: Jonny Pecos e Calafrio. Para a revista de faroeste, Rubão volta a desenhar um texto de Rivaldo, no número 2, mas por alguma razão, assina a história como "E. Cristóbal". Nessa revista, ele não era o único a fazer isso, pois Reinaldo de Oliveira também escreveu como "Jota Laerte". Talvez Rubão tenha feito isso por ter desenhado a história num estilo, digamos, diferente do que costumava, com bastante comicidade. Já no número 3, ele volta à revista, desta vez com texto de Gedeone, usando seu traço mais usual. Mas a revista Jonny Pecos não foi bem nas vendas e foi descontinuada no número 4, sendo substituída por outro título de terror: Mestres do Terror.

Em seus primeiros números Calafrio se valia de muito material desenhado por Zalla e por Colonnese que já tinha sido publicado, mas logo Zalla começou a encomendar novas histórias para seus colaboradores, tanto para Calafrio como para Mestres do Terror, e Rubão, obviamente, trabalhou muito para ambas as revistas, ilustrando histórias escritas por Reinaldo de Oliveira, Gedeone e, para minha alegria, eu. Entre estas, estão algumas que escrevi para uma nova série, encomendada às pressas por Rodolfo Zalla: Nádia, a Filha de Drácula, que começou a sair a partir do número 33 de Mestres do Terror. A história editorial dessa personagem tem a ver com de Mirza, a Mulher-Vampiro, que é muito mais famosa. Para resumir uma longa história, Colonnese vinha publicando histórias novas de sua super sexy vampira em Mestres do Terror, mas teve um desentendimento com Rodolfo Zalla, por causa de uma capa, e parou de colaborar com as revistas. Os dois reataram a amizade algum tempo depois, mas durante um período, Mirza, que era muito popular entre os leitores deixou a revista e precisava ser substituída. A toque de caixa, Zalla me encomendou a criação de uma mulher-vampiro e foi assim que algum tempo depois saiu a primeira história com lindos desenhos de Rubens Cordeiro, que continuou na série por um bom tempo depois que eu saí, trabalhando sobre histórias de Sidemar Vicente de Castro, que me substituiu na personagem.

Infelizmente, com os sucessivos planos econômicos e com o descontrole da inflação, Rodolfo Zalla teve que deixar de editar suas revistas em 1993.

De lá para cá, Rubão colaborou aqui e ali com alguns projetos que não foram adiante, até que voltou a colaborar no título Calafrio, há poucos anos, quando a revista voltou a ser editada numa tiragem para colecionadores.

Rubão sempre foi um dos colaboradores mais confiáveis de todos os editores que publicaram seus trabalhos. Sempre foi muito profissional e sempre entregou com brilho todas as suas encomendas, na maior parte das vezes antes do prazo, algo raro nesse mercado. Além disso, é muito modesto e está sempre disposto a ajudar quem quer que seja. Por causa disso, é muito querido entre todos os que tiveram a sorte de trabalhar com ele.

A história que vocês vão ler, Operação Jovem Guarda, foi desenhada há alguns anos e até agora não havia encontrado um editor. Veja só como você tem sorte! Aqui vamos ver Rubão soltando a mão numa ótima história em que revisita aqueles personagens que não vemos há muitos anos, e dos quais muitos leitores apenas ouviram falar. Nós, que somos seus fás, só podemos agradecer pela grande oportunidade de poder apreciar esta história.

Por fim, é muito importante mencionar que, mesmo sem publicar, Rubão jamais parou de desenhar. Na verdade, ele acha que nunca desenhou tão bem quanto hoje em dia. Desenhar é sua paixão. Todos os dias podemos encontrá-lo em sua prancheta, desenhando ou pintando, sem jamais perder o prazer que sempre teve com isso, desde que era apenas o menino que copiava os heróis dos gibis que seu pai trazia na volta do trabalho.

Toni Rodrigues

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